Carreira na aviação: os primeiros passos de Arthur
Postado em 23 de October de 2026
Da mudança ao primeiro passo: a trajetória de Arthur na aviação
Série Vozes da Experiência 2026
Entrevista realizada pelo acadêmico Pedro Cabral e Silva, do curso de Ciências Aeronáuticas da Faculdade AeroTD.
Da mudança de estado à atuação como instrutor teórico de Piloto Privado, Arthur compartilha os desafios e aprendizados de sua formação. Uma história da série Vozes da Experiência sobre escolhas, amadurecimento e os primeiros passos na aviação.

Quando o sonho exige mudar de rota
Construir uma carreira na aviação raramente é um percurso linear. Antes das licenças, das horas de voo e das responsabilidades profissionais, muitas trajetórias começam com uma decisão pessoal: deixar o conhecido para se aproximar de uma possibilidade.
Foi esse movimento que marcou a história de Arthur, instrutor teórico do curso de Piloto Privado no Aeroclube de Blumenau. Natural do Rio Grande do Sul, ele escolheu Santa Catarina como destino para ampliar seus conhecimentos e dar continuidade à formação aeronáutica. Blumenau, como define, tornou-se sua “segunda casa”.
Sua experiência foi compartilhada com o acadêmico Pedro Cabral e Silva durante a atividade extensionista Vozes da Experiência, iniciativa da Faculdade AeroTD que aproxima estudantes de profissionais do setor e transforma histórias reais em conhecimento para quem está construindo a própria carreira.
A adaptação que acontece além da sala de aula
Mudar de estado para estudar envolve muito mais do que reorganizar endereço e rotina. Para Arthur, a distância da família foi o desafio mais significativo. As visitas acontecem apenas duas vezes por ano, e aprender a conviver com a saudade tornou-se parte do processo.
Com o tempo, porém, novos hábitos e vínculos ajudaram a construir um cotidiano possível. Essa adaptação revela um aspecto nem sempre lembrado na formação aeronáutica: o desenvolvimento profissional também exige autonomia emocional, capacidade de reorganização e disposição para atravessar períodos de incerteza.
A aviação é uma atividade orientada por planejamento e responsabilidade, mas quem escolhe esse caminho também precisa aprender a administrar as mudanças da vida fora do ambiente operacional.
Uma viagem que ficou na memória
Entre as experiências mais marcantes de sua formação, Arthur recorda uma viagem de retorno ao Rio Grande do Sul feita por meio de caronas. Foram dois dias na estrada, dividindo a cabine com caminhoneiros, parando em postos e conhecendo uma realidade muito diferente da rotina habitual.
A lembrança é contada com bom humor foi inesquecível, embora ele reconheça que não repetiria a aventura. Mais do que uma história curiosa, o episódio retrata a disposição de quem, durante a formação, precisou encontrar caminhos possíveis com os recursos disponíveis.
Carreiras são construídas também nesses bastidores: decisões improvisadas, dificuldades financeiras, saudade, esforço e experiências que não aparecem em certificados, mas influenciam a maturidade de cada profissional.

Um interesse despertado por uma conversa
A entrada de Arthur na aviação não começou com um plano traçado desde a infância. Na época em que trabalhava como instrutor de academia, um aluno comentou que gostava de aviação e passou a apresentar a ele esse universo.
A curiosidade levou à pesquisa. Quando compartilhou o novo interesse com a família, descobriu que o pai havia sonhado, na infância, em servir à Força Aérea. A conversa fortaleceu uma percepção que começava a ganhar forma: aquele poderia ser o caminho que procurava.
Sua história mostra que uma vocação pode nascer do contato com outras pessoas. Às vezes, a decisão profissional não surge como certeza imediata, mas como uma curiosidade que cresce quando encontra informação, exemplos e espaço para ser explorada.
Quando uma conversa também transforma o futuro de outras pessoas
O que aconteceu com Arthur não é um caso isolado. Em junho de 2026, uma reportagem da Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso apresentou histórias de estudantes que iniciaram sua formação no programa Decolando, iniciativa voltada à formação de pilotos civis entre jovens da rede pública estadual.
Entre os participantes está Heitor Sebastião Magalhães Froes, estudante de Cuiabá, que conheceu a oportunidade por meio de um amigo. A partir daquela conversa, começou a pesquisar sobre a profissão e passou a enxergar a aviação como uma possibilidade real para seu futuro.
O episódio ganhou um significado ainda maior quando seu pai, Rogério Froés, revelou que também havia sonhado em seguir essa carreira, mas não tivera oportunidade. A conquista do filho passou, então, a representar a continuidade de um sonho entre gerações.
Outro participante, João Marcos de Farias, contou que inicialmente não tinha o objetivo de se tornar piloto. Seu interesse surgiu à medida que conheceu melhor a formação e as oportunidades oferecidas pelo programa (SOARES, 2026).
As histórias apresentam uma semelhança com a trajetória de Arthur: nem todo sonho profissional nasce na infância. Alguns começam quando alguém apresenta uma possibilidade que ainda não conhecíamos.
É justamente por isso que o contato com profissionais, instituições e experiências reais pode fazer tanta diferença para quem ainda está escolhendo seu caminho.
Para começar, aproxime-se da realidade
Ao aconselhar quem deseja ingressar na aviação, Arthur propõe atitudes concretas: frequentar aeroclubes e escolas, conversar com profissionais e realizar um voo de incentivo. Antes de idealizar a carreira à distância, é preciso conhecer seus ambientes, sua rotina e as pessoas que já atuam no setor.
Para ele, a etapa mais difícil é sair da inércia. Isso não significa agir sem planejamento, mas transformar interesse em aproximação real: visitar uma instituição, fazer perguntas, pesquisar a formação necessária e compreender os caminhos disponíveis.
Esse movimento inicial pode confirmar uma escolha, revelar novas possibilidades ou até mostrar que outra área da aviação combina mais com o perfil do futuro profissional. Em qualquer cenário, o contato com a realidade produz clareza.
A própria Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) reforça a importância de compreender as etapas de formação. Para a obtenção da licença de Piloto Privado, por exemplo, são exigidos conhecimentos teóricos, instrução prática em Centro de Instrução de Aviação Civil (CIAC) certificado, aptidão médica, experiência de voo e aprovação em exame de proficiência (ANAC, 2025).
Essas exigências mostram que a carreira não depende apenas da vontade de voar. Existe um percurso de preparação que precisa ser conhecido, planejado e realizado com responsabilidade.
Por isso, a recomendação de Arthur ganha ainda mais sentido: aproximar-se da aviação antes de tomar grandes decisões é uma maneira de transformar entusiasmo em um projeto de carreira mais consciente.
Formação técnica e amadurecimento pessoal
A conversa conduzida por Pedro evidencia que a preparação para a aviação não acontece somente no estudo de regulamentos, procedimentos e conhecimentos técnicos. Ela também passa pela adaptação a novos ambientes, pela construção de autonomia e pela capacidade de continuar mesmo quando a trajetória exige renúncias.
Essa relação entre conhecimento técnico e capacidade de julgamento também aparece nas orientações internacionais de formação aeronáutica. O Pilot’s Handbook of Aeronautical Knowledge, publicado pela Federal Aviation Administration (FAA), dos Estados Unidos, dedica um capítulo específico à tomada de decisão aeronáutica, destacando a importância da avaliação de riscos e das decisões conscientes para a segurança do voo (FAA, 2023).
Embora a experiência pessoal e as decisões operacionais sejam situações diferentes, ambas ajudam a compreender uma característica importante da profissão: desenvolver a capacidade de avaliar circunstâncias, reconhecer limites e assumir responsabilidades.
Nesse sentido, experiências como mudar de cidade, administrar dificuldades e adaptar-se a uma nova rotina também podem contribuir para o amadurecimento de quem pretende construir uma carreira no setor.
Ao promover esse encontro, o projeto Vozes da Experiência amplia a formação acadêmica com aquilo que somente uma história vivida consegue oferecer: contexto.
A trajetória de Arthur lembra aos futuros profissionais que começar uma carreira é também aprender a mudar de rota, criar novas referências e dar o primeiro passo com consciência.
Na aviação, todo voo começa antes da decolagem. Na carreira, não é diferente.
Referências
AGÊNCIA NACIONAL DE AVIAÇÃO CIVIL (ANAC). Obter licença para exercer a atividade de Piloto Privado (PP) – Avião (PPR), Helicóptero (PPH) ou Dirigível (PPD). Brasília, DF: ANAC, 2025.
FEDERAL AVIATION ADMINISTRATION (FAA). Pilot’s Handbook of Aeronautical Knowledge. FAA-H-8083-25C. Washington, DC: Federal Aviation Administration, 2023.
SOARES, Laís. Sonho de pilotar avião começa a virar caminho profissional para estudantes da Rede Estadual. Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso. Cuiabá, 24 jun. 2026.

Compartilhe