Aviação em Foco

Diversidade e Inclusão na Aviação Brasileira: dados, desafios e avanços no setor aéreo

Diversidade e inclusão na aviação brasileira: profissionais negros(as), mulheres e Pessoas com Deficiência no setor aéreo

Charles Hardt

Postado em 26 de fevereiro de 2026

Diversidade e Inclusão na Aviação Brasileira: dados, desafios e avanços no setor aéreo

A aviação sempre foi sinônimo de futuro. Mas, quando olhamos para quem ocupa esses espaços: cockpit, cabine, manutenção e operações, ainda existe uma grande diferença entre a real diversidade do Brasil e a diversidade que encontramos dentro do setor Aéreo.

E não é por falta de talento! Muitas vezes, o que impede alguém de começar (ou permanecer) é uma combinação de fatores: investimento financeiro, falta de rede de apoio, ausência de referências próximas e barreiras culturais que desmotivam antes mesmo da primeira tentativa.

A boa notícia: há mudanças acontecendo, com iniciativas coletivas, programas estruturantes e empresas que passaram a assumir metas e ações para modificar este cenário.

Por que a diversidade ainda é tão baixa?

A baixa representatividade costuma nascer de um conjunto de barreiras (visíveis e invisíveis). As mais comuns são:

  • Investimento: formação, deslocamento, documentação, exames e horas práticas podem exigir um custo alto;
  • Rede de contatos (“networking”): em muitas empresas, a indicação e acesso a círculos profissionais ainda pesam muito;
  • Falta de referência e pertencimento: quando você não vê pessoas como você naquele lugar, fica mais difícil acreditar que ele também é possível de alcançar;
  • Desigualdade de permanência: não basta entrar é preciso ter ambiente, cultura e oportunidades para crescer com segurança e respeito.

O resultado é um funil: muita gente interessada no início e pouca gente chegando aos cargos mais disputados ou mais estratégicos.

O que os dados e estudos apontam sobre Representatividade Racial:

Levantamentos e reportagens recentes (entre os anos de 2023 e 2024) vêm mostrando um cenário de sub-representação negra em diferentes funções do setor.

De acordo com o levantamento do coletivo Quilombo Aéreo, divulgado pelo jornal O Estado de S. Paulo, a presença de profissionais negros entre pilotos comerciais ativos no Brasil é de aproximadamente 2% a 3%. Este percentual revela um profundo descompasso quando comparado aos dados do IBGE (PNAD Contínua 2023), que indicam que mais de 56% da população brasileira se autodeclara negra ou parda, evidenciando a necessidade de ações para refletir a composição racial do país.

Entre comissários(as), o cenário tende a ser um pouco melhor, mas ainda distante do ideal: reportagens citam uma faixa de aproximadamente 5% a 8% de representatividade negra, indicando que a cabine avança, mas ainda não reflete nosso país como deveria.

A atuação do Quilombo Aéreo:

O coletivo Quilombo Aéreo, mencionado anteriormente, é uma iniciativa brasileira que promove a Inclusão e Diversidade na aviação civil, fundada entre 2018 – 2019 pelas comissárias de voo Kenia Aquino e Laiara Amorim, o projeto se dedica a combater o racismo institucional e a baixa representatividade de pessoas negras e periféricas no mercado Aéreo.

O grupo oferece capacitação, apoio educacional e mentorias, destacando-se pelo projeto “Pretos que Voam” que conecta profissionais negros do setor, aumentando a visibilidade e inspirando novas gerações, através de parcerias estratégicas com escolas de aviação e diálogo com grandes companhias aéreas.

O Quilombo Aéreo busca transformar o céu brasileiro em um ambiente mais diverso e representativo, tornando-se uma referência importante no tema de equidade racial na aviação.

Fomento à Formação: Recentemente, o coletivo recebeu um aporte de 400 mil reais para financiar a capacitação de novas comissárias negras, combatendo a barreira financeira que é um dos maiores obstáculos de entrada.

E o nome não é por acaso.

O termo “quilombo”, na história brasileira, carrega a ideia de comunidade, resistência, proteção e construção coletiva de futuro. Ao usar essa palavra, o Quilombo Aéreo comunica uma mensagem forte: “ninguém deveria atravessar essa jornada sozinho(a)”

O Marco da LATAM Brasil:

Quando uma grande empresa assume metas e entrega resultados, o efeito costuma ser imediato: torna-se referência e impulcionando o mercado.

Em 2024, a LATAM Brasil divulgou a contratação de 438 novos comissários de voo no primeiro semestre e, segundo a companhia, quase 50% dos novos tripulantes são pessoas negras. Isso sinaliza um processo de mudança, que reforça algo poderoso: Quando alguém se vê, alguém se permite.

 

Participação Feminina na Aviação: por que ainda é um desafio

A presença de mulheres cresce no setor, mas ainda encontra barreiras específicas, principalmente em áreas técnicas e em posições de liderança.

O avanço depende de três pilares:

  • Acesso e entrada: estímulo desde cedo (visibilidade de crescimento, incentivo nas escolas e trilhas formativas);
  • Ambiente e permanência: cultura organizacional de Apoio a Mulher (que visa a prevenção e denúncia de assédio). Além de oportunidades reais de promoção;
  • Reconhecimento e liderança: mulheres em cargos técnicos e de decisão se tornam inspiração para quem vem depois.

Nos últimos anos, a ANAC – Agência Nacional de Aviação Civil tem ampliado o debate e estruturado projetos voltados à inclusão, além de ações para fundamentar políticas e práticas no setor.

  • Subprograma Mulheres na Aviação: Focado em identificar e remover barreiras regulatórias e culturais que impedem a ascensão feminina;
  • Capacitação Técnica: Parcerias com o MEC – Ministério da Educação para oferta de cursos de Manutenção Aeronáutica exclusivos para mulheres, visando aumentar a base técnica feminina no setor;
  • Pesquisa Científica (ANAC/UnB): Realização de seminários e estudos para fundamentar políticas públicas de equidade de gênero no setor aéreo.

Programa Asas Para Todos: democratizando o setor aéreo

O Asas Para Todos, lançado pela ANAC em parceria com o Ministério de Portos e Aeroportos, reúne e impulsiona ações voltadas a uma aviação mais inclusiva, diversa e qualificada. A iniciativa visa unir todo o setor aéreo, incluindo companhias aéreas, fabricantes e empresas de manutenção.

 Objetivos estratégicos:

Ampliar a participação de grupos sub-representados (com foco em estudantes e profissionais de baixa renda);
 
Fomentar capacitação e formação mais acessível;
 
Fortalecer ações de inclusão (com metas, parcerias e iniciativas estruturadas).

Perfis e frentes contempladas

O programa abrange diferentes perfis e trilhas do setor, com destaque para:

  • Pilotos(as): incentivo à formação e entrada no mercado, com atenção a jovens;
  • Mulheres na Aviação: eixo específico voltado a reduzir barreiras e aumentar a participação em cargos de manutenção, liderança, pilotagem;
  • Manutenção aeronáutica: oferta de bolsas para qualificação e formação técnica, ampliando a base de profissionais;
  • Segurança operacional: estímulo a capacitação e especialização de profissionais que já atuam ou pretendem ingressar na área, especificamente os Agentes de Segurança de Voo (ASV) e Oficiais de Segurança de Voo (OSV);
  • Serviços aeroportuários: incentivo a empresas de atendimento, embarque e bagagem a adotarem metas de diversidade. Beneficiando grupos sub-representados (mulheres, pessoas negras, LGBTQIA+ e PcDs) que buscam inserção no mercado de trabalho aeroportuário.
  • Pessoas com deficiência (PcD): inclusão com foco em funções e ambientes possíveis como Despachante Operacional de Voo (DOV), Controle de Tráfego Aéreo (ATC) e Suporte Operacional (conforme requisitos do cargo), com ações voltadas a melhorias de acessibilidade e permanência destes talentos;
  • Profissionais de Áreas Técnicas e de Engenharia: Fomento à qualificação nas áreas de ciências, tecnologia, matemática e engenharia;

O programa também promove ações de aproximação com estudantes (como visitas técnicas e iniciativas de orientação), ampliando o repertório de quem ainda não conhece “por dentro” como funciona a aviação.

Por que Diversidade e Inclusão são Diferenciais Competitivos?

Porque é estratégia! Um estudo da McKinsey (Diversity Wins, 2020) aponta que empresas com maior diversidade étnica e de gênero têm até 36% mais probabilidades de superar seus concorrentes em lucratividade. Além disso, organizações que ignoram tais pautas acabam:

  • Perdendo colaboradores;
  • Limitando inovação e visibilidade;
  • Estreitando o funil para possíveis candidatos a vagas;
  • Enfraquecendo a cultura da empresa.

Por outro lado, quando bem implementadas, podem gerar:

  • Times mais criativos, proativos e resolutivos;
  • Melhor clima interno e, consequentemente, a retenção de profissionais;
  • Melhor acolhimento para colaboradores e clientes.

 

Checklist para uma mudança cultural real

Se o objetivo é mudança de verdade (não só discurso), vale começar por aqui:

Revisar processos seletivos para captar a diversidade (inclusive nos critérios “não oficiais”);
  ✅ Criar programas de capacitação e entrada ( como bolsas, mentorias, trilhas de aprendizagem e de reciclagem);
  ✅ Fortalecer redes e comunidades (conversas periódicas com o time sobre diversidade e inclusão, acompanhamento, feedbacks bilaterais e representatividade profissional);
  ✅ Treinar lideranças para aplicar a inclusão no cotidiano (não só em datas comemorativas);
  ✅ Definir metas e medir resultados (sem métrica, vira somente intenção);
  ✅ Atualização constante na comunicação e imagem da empresa para refletir o Brasil real.

Talentos são reconhecidos pelo que fazem, não pela aparência. Uma aviação diversa é mais inteligente, inovadora e humana. O futuro dos céus é plural.

Seu lugar é aqui!

Se você nunca se imaginou dentro do mercado da aviação, fica um recado direto: a aviação precisa aprender com você. Procure redes de apoio, iniciativas de formação e programas que impulsionam carreiras.

Encontre a sua oportunidade ideal: Acesse a Rede Aviação (www.redeaviacao.com.br), uma plataforma  que valoriza o talento acima dos padrões.

 Referências:

Compartilhe


Ir para o conteúdo