Carreiras na Aviação

Carreira de comissário de voo: técnica, segurança e empatia

Charles Hardt

Postado em 8 de outubro de 2026

Além da técnica: servir, compreender e fazer o melhor possível na aviação

A carreira de comissário de voo exige muito mais do que o domínio de procedimentos. Em entrevista à AEROTD, Raymundo Nonato de Freitas Junior, inspetor da ANAC e ex-comissário com 18 anos de experiência, explica por que segurança, gestão da fadiga, empatia e interesse pelo setor são fundamentais para a formação de um profissional completo.


Série Vozes da Experiência 2026

Entrevista realizada pela acadêmica Júlia Jardim Schaffer, da 4ª fase de Tecnologia em Transporte Aéreo da Faculdade AEROTD.

Uma carreira construída entre segurança e serviço

Na aviação, excelência não significa controlar todas as variáveis. Meteorologia, atrasos, diferenças culturais, necessidades dos passageiros e mudanças operacionais fazem parte de um ambiente em constante movimento. O que o profissional pode controlar é a qualidade de sua resposta: preparo, atenção, equilíbrio e humanidade.

Essa é uma das principais reflexões compartilhadas por Raymundo Nonato de Freitas Junior, Inspetor da Aviação Civil da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), em entrevista conduzida pela acadêmica Júlia Jardim Schaffer para a atividade extensionista Vozes da Experiência, da Faculdade AeroTD.

Com 18 anos de atuação no setor e experiência anterior como comissário de voo, Raymundo apresenta uma leitura da profissão que ultrapassa a imagem tradicional do atendimento a bordo. Em sua trajetória, segurança, relações humanas e disposição para servir aparecem como partes inseparáveis do trabalho.

Uma oportunidade que revelou uma profissão

A entrada de Raymundo na aviação aconteceu de maneira prática. Enquanto estudava em uma universidade federal, precisava de um emprego com jornada de seis horas que pudesse conciliar com a graduação. A então companhia aérea VARIG estava contratando profissionais para o check-in, e ele se candidatou.

Posteriormente, uma seleção interna abriu o caminho para a função de comissário. Naquele momento, Raymundo sabia que a atividade envolvia segurança e atendimento, mas ainda não compreendia plenamente como essas duas dimensões se encontravam na rotina de voo.

A experiência mostraria que ser comissário não é apenas executar procedimentos ou oferecer um serviço cordial. É observar o ambiente, antecipar necessidades, administrar situações inesperadas e estar preparado para agir quando alguém precisa de ajuda.

O gerenciamento da fadiga como responsabilidade profissional

Entre os desafios mais persistentes de sua carreira, Raymundo destaca o sono. Voos noturnos, diferenças de fuso horário, quartos desconhecidos e mudanças frequentes de rotina podem comprometer descanso, alimentação, concentração e desempenho físico.

Mesmo após anos de experiência, ele trata a qualidade do sono como uma prioridade. Exercícios físicos, yoga e meditação integram sua rotina de cuidado. A estratégia não elimina todas as dificuldades, mas ajuda a preservar as condições necessárias para trabalhar com atenção e equilíbrio.

Na aviação, cuidar da própria saúde não é apenas uma escolha individual. Fadiga e queda de desempenho afetam a capacidade de perceber riscos, comunicar-se e tomar decisões. Reconhecer limites e desenvolver práticas consistentes de autocuidado faz parte da responsabilidade profissional.

Excelência como direção, não como cenário perfeito

Para Raymundo, a excelência é algo colocado no horizonte — uma referência buscada todos os dias, mesmo quando a realidade impede que tudo aconteça como planejado.

Um voo pode atrasar por causa da chuva. Uma família pode receber assentos separados. Um passageiro pode embarcar fragilizado. Nessas situações, o profissional talvez não consiga produzir a experiência ideal, mas ainda pode fazer o melhor com os recursos disponíveis: comunicar com clareza, buscar alternativas e tratar as pessoas com atenção genuína.

Essa visão desloca a excelência da ideia de perfeição para a ideia de presença responsável. Não se trata de prometer que nenhum problema ocorrerá, e sim de estar preparado para responder com competência quando ele surgir.

Interesse verdadeiro pelas pessoas e pelo setor

Saber lidar com pessoas é, na avaliação do inspetor, uma competência fundamental para o comissário. Mas isso vai além de afirmar, em uma entrevista, que se gosta de relações humanas. É preciso demonstrar curiosidade, atenção e conexão com o que acontece no mundo e na própria aviação.

O profissional que deseja atuar no setor precisa acompanhar acontecimentos, estudar ocorrências, refletir sobre decisões operacionais e compreender os fatores humanos envolvidos. A informação está disponível, mas transformá-la em repertório depende de interesse ativo.

O discurso profissional ganha consistência quando aparece na prática. Gostar de pessoas significa perceber o outro. Gostar de aviação significa manter-se atento ao setor, às mudanças, aos riscos e às responsabilidades que acompanham a função.

Quando servir significa simplesmente estar presente

Uma das experiências mais marcantes relatadas por Raymundo ocorreu durante o transporte do corpo de uma criança. Diante da dor de uma mãe, não havia procedimento capaz de resolver a situação. O que ele pôde oferecer foi presença: um olhar, uma mão e o reconhecimento da dor de outro ser humano.

O episódio redefiniu sua compreensão sobre utilidade a bordo. Em alguns momentos, servir exige ação técnica imediata; em outros, exige silêncio, respeito e empatia.

Essa dimensão humana acompanhou sua evolução profissional. Vindo de uma família simples, Raymundo também alcançou espaços de representação internacional, participando de debates na Organização da Aviação Civil Internacional (OACI) e na Organização das Nações Unidas (ONU). Para ele, essas conquistas permanecem conectadas ao mesmo propósito: usar a profissão para servir.

O profissional completo que a aviação exige

Aos estudantes, Raymundo deixa uma orientação direta: buscar o melhor tecnicamente e também como ser humano. Conhecer aeronaves, normas e procedimentos é indispensável, mas não suficiente para uma função centrada na segurança e no cuidado com pessoas.

O mercado precisa de profissionais capazes de contribuir com soluções. Isso requer estudo contínuo, responsabilidade, empatia, consciência situacional e disposição para melhorar. Não existe caminho fácil, mas existe um caminho construído por escolhas consistentes.

A entrevista realizada por Júlia mostra por que a aproximação entre estudantes e profissionais experientes é tão valiosa. Os conteúdos acadêmicos ganham profundidade quando encontram situações reais, dilemas humanos e perspectivas acumuladas ao longo de uma carreira.

O projeto Vozes da Experiência reforça, assim, uma verdade essencial: na aviação, a técnica sustenta a operação, mas são as pessoas que dão sentido a ela.

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